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março 13
Um refeitório, uma sala apropriada para  servir a alimentação escolar é importante? Por Maria Elena Turpin*

 

Comer é, antes de tudo, um ato social, de integração entre as pessoas. A hora da refeição é uma oportunidade de troca, seja com a família, amigos ou mesmo com pessoas que não conhecemos.

Por outro lado, como ensina a nutrição, deve ser um momento dedicado à ação de comer para promover uma boa digestão e aproveitamento dos alimentos pelo corpo, bem como deve seguir todos os requisitos de higiene para evitar os riscos de doenças causadas pela alimentação. Comer bem está intimamente relacionado a uma boa saúde, apesar de não ser o único fator envolvido.

Para os dois fins é essencial um local adequado, limpo, calmo, de preferência bonito, que exale os odores da comida para abrir o apetite, com mesa e cadeiras bem conservadas e que acomodem confortavelmente todos os presentes.

Na alimentação escolar, essa ação se reveste de mais um objetivo que é o ato de educar, educar a se alimentar e nutrir. Várias pesquisas atuais mostram que a população brasileira está reduzindo significativamente a porcentagem de desnutridos por falta de alimentação e aumentando a passos largos a quantidade de pessoas com sobrepeso e obesas, problemas que, por estranho que pareça, também estão associados, muitas vezes, à subnutrição. Além disso, esses males dos tempos modernos aumentam a incidência de doenças cardiovasculares e diabetes. Esse fenômeno está ligado, entre outros fatores, à alimentação não saudável, inadequada, por isso, a escola passa a ser um importante local para as pessoas aprenderem a comer.

Hoje é uma determinação do Programa Nacional de Alimentação Escolar - PNAE que o tema educação alimentar e nutricional esteja inserido no currículo escolar. Nesse contexto, o momento da alimentação escolar é, para além da socialização, uma ação pedagógica de educação alimentar e nutricional e, como tal, deve prever todos os requisitos para cumprir sua função. Deve, portanto, oferecer aos alunos não só uma refeição saudável, mas um local adequado para que a alimentação seja bem aproveitada e para que os alunos percebam isso e levem esse ensinamento para fora da escola, podendo ensinar até as famílias a se alimentarem melhor.

Por isso, comer em pé, ou andando, ou jogado em um corredor segurando o prato na mão, sem um refeitório bem estruturado ou uma sala apropriada dentro da escola, atrapalham muito o bom aproveitamento dos alimentos e a oportunidade desse aprendizado pelas crianças e jovens, mesmo que a refeição seja gostosa e nutricionalmente bem equilibrada.

* Maria Elena Turpin é Coordenadora de Projeto da AFZ

 

janeiro 31
"O desafio que representa a educação alimentar na escola" por Fatima Menezes*

Nos anos 90, quando teve início a discussão sobre os dos Parâmetros Curriculares Nacionais, a Educação Alimentar foi sugerida como tema transversal ao currículo mínimo das instituições de ensino médio. Naquele momento da historia do país, a questão alimentar ainda era um tema restrito, aos profissionais da área de saúde pública.

Na comunidade escolar havia o desafio de compreender o tema em suas múltiplas acepções de forma que pudesse atender aos conteúdos interdisciplinares, outro desafio da época.

Entretanto a mudança do hábito alimentar da população brasileira por meio do consumo cada vez mais intenso de alimentos industrializados, fora de casa e o aumento da oferta diversificada e produtos alimentares, colocou o tema educação alimentar em outra dimensão.

Trata-se agora de colocar a questão alimentar como conteúdo programático em todas as fases de educação básica, constituindo-se como um item do currículo escolar e do projeto pedagógico da unidade escolar. Mas como fazer isso se os profissionais de ensino não foram preparados para este desafio?

A resposta a essa pergunta parece indicar a necessidade de uma ação de política pública voltada para a conscientização da sociedade brasileira e especialmente da comunidade escolar e os educadores.

No que diz respeito ao sistema público de ensino que obrigatoriamente tem a responsabilidade de prover no mínimo uma refeição aos alunos por meio do PNAE-Programa Nacional de Alimentação Escolar, a questão parece estar sendo encaminhada.

Entretanto é necessário envolver educadores na criação de estratégias que possam reverter o quadro descrito anteriormente.

 Um bom caminho parece ser a sensibilização tanto de alunos como de professores para o sabor dos alimentos naturais. Apreciar certos sabores, como muitas outras coisas na vida, pode ser resultado de aprendizado. Além disso, há de se constatar que utilização de açúcares e sal em dosagens exageradas tem interferido na criação de um padrão alimentar que para ser desconstruído precisa de um trabalho contínuo e intenso.

Os nutricionistas são os profissionais indicados para levar adiante esta mudança de padrão alimentar e a alimentação escolar uma excelente oportunidade para aproximar o consumidor de novas experiências em relação ao sabor.

Para isso acontecer de forma simples, a sociedade educativa precisa estar sensibilizada e comprometida construindo uma grade curricular na qual o tema alimentar esteja presente de forma viva e não para preencher uma necessidade legal e ou um princípio educacional. 

*Fatima Menezes é Diretora da Ação Fome Zero

janeiro 03
"Usar ou não usar colher de pau nas cozinhas?" por Sineide Santos*

Já se tornou trivial dizer que não há lugar mais perigoso no mundo do que as cozinhas, com seus pisos escorregadios, suas quinas fatais e, sobretudo, suas bactérias e outros terríveis bichinhos invisíveis. Nesse sentido, as cozinhas são uma mistura de Bagdá com Faixa de Gaza: em suas inocentes panelas, nas ternas colheres de pau e nas inofensivas tábuas de carne, se escondem uns 100 números de bichinhos que trazem riscos à saúde, se aproveitando do sagrado momento de comer para promover um ataque silencioso ao nosso corpo. Mas há alguns segredos na hora de lavar a louça ou de comprar.

O primeiro passo é eliminar os tripudiados utensílios de madeira da cozinha. Pois de fato eles são verdadeiros multiplicadores e criadouros de fungos, bactérias, não podem ser abafadas em gavetas e por aí vai. O melhor é substituir esses utensílios por plásticos. Mas lembre-se que eles não são hereditários. Quando esses instrumentos estiverem riscados, amarelados, já é hora de substituí-los.

O segundo passo é uma boa higienização dos utensílios, lembrando que no caso da colher de madeira não existe uma forma mágica de higienização, pois a madeira é um material poroso que vai acumulando resíduos dos alimentos em seu interior. Daí por mais que lave depois de usar, muitos bichinhos nocivos não vão se sentir nem incomodados e continuarão bem acomodados ali, comendo o que sobrou nas fissuras e lascas. Como se não bastasse, eles ainda se multiplicam!

Então não tem solução, pode até doer o coração, mas o certo é jogar a colher, junto com todos os outros utensílios de madeira que tem na cozinha, no lixo! Trocando estes utensílios por similares de materiais não porosos, de plástico ou vidro, que podem ser higienizados de maneira adequada e não juntam tantos resíduos de alimentos, podemos garantir uma alimentação escolar mais segura às nossas crianças.

*Sineide Santos é nutricionista e Analista de Projetos da Ação Fome Zero.

dezembro 07
"É mais saudável ingerir a fruta ou tomar o suco?" por Sineide Santos*

O Brasil tem o privilégio de cultivar centenas de espécies de frutas e de oferecer boa parte delas a baixo custo, especialmente as chamadas frutas da estação. Acostumados com tanta fartura, nem imaginamos que o hábito de comer frutas é bastante recente. Até o século 19, a maioria das civilizações não incluía as frutas na alimentação.
Não precisamos de muitas explicações para que a gente goste delas, bastam os adjetivos. Elas são coloridas, são tenras, macias, suculentas, são azedinhas, bem docinhas, irresistíveis. Só o sabor e a fartura das frutas em nosso país já seriam argumentos suficientes para incluir no cardápio cotidiano da merenda escolar. Mas há outras razões, muito importantes para o organismo, já que cada vez mais as frutas vêm sendo destacadas pelas pesquisas e por especialistas. O fato é que as frutas de um modo geral trazem uma grande contribuição à saúde.
O sabor e o colorido das frutas são duas marcas registradas para atrair a criançada. Antes de provocar água na boca, as frutas já são de prender o olhar. Eu costumo dizer que também se come com os olhos, pois a aparência das comidas e o arranjo dos pratos têm muita importância no sabor e mesmo na qualidade da alimentação principalmente para a garotada.
As frutas além de saborosas são fundamentais para a boa saúde e são fontes abundantes de vitaminas e minerais, fortalecendo as defesas do organismo. As propriedades benéficas para a saúde estão presentes nas frutas cruas e batidas em forma de suco.
Sempre existe a pergunta o que é mais vantajoso, se é ingerir a fruta ou consumir em forma de suco. No geral, não há grande diferença, desde que o suco natural não seja coado, seja feito na hora e consumido em seguida.
Mas entre morder a fruta e beber o suco, continuo dizendo que o mais importante é ingerir a fruta. A água que se adiciona ao suco, desde que seja absolutamente potável, vem suprir a necessidade de líquido do nosso organismo, mas por outro lado, ao mastigarmos a fruta crua, estamos estimulando todo nosso sistema digestório, com um maior aproveitamento de nutrientes e fibras.


*Sineide Santos é Nutricionista e Analista de Projetos da AFZ. 

outubro 31
Por que  nos cardápios da alimentação  escolar há tantos alimentos com carboidratos? Por Sineide Santos*

Cardápio rico em carboidratos e pobre em frutas e hortaliças. Esse é o prato população brasileira e não é diferente nos cardápios escolares, grande oferta de um grupo pouca oferta de outros. Por quê? Grande aceitação de determinados grupos e pouca aceitação de outras porque, teoricamente um determinado alimento é mais saboroso, atrativo e aceito por todos? Porque é de fácil preparo, fácil acesso?
A alimentação é um dos fatores mais importantes em qualquer fase da vida, pois é através de uma alimentação balanceada que o organismo é suprido de energia e nutrientes necessários ao seu desenvolvimento e manutenção de sua saúde. A escola é uma grande aliada nesse processo. Sabe-se que os hábitos alimentares adquiridos na infância tendem a se solidificar na vida adulta e por isso é importante estimular a formação de hábitos saudáveis o mais precocemente possível. Durante a etapa escolar infantil, fase entre os seis  e os doze anos, o crescimento é caracterizado como lento e constante. Este é um grupo etário que tem suas próprias necessidades nutricionais diferindo das outras fases de crescimento, pois nesta fase a criança tem novas funções que requerem maior quantidade energética com aporte vitamínico e mineral adequado. Nesta fase a criança sente uma maior segurança e independência das funções motoras por remeterem ao aumento de diversas atividades como brincar, pensar, estudar, rir, influenciando na estimativa do gasto energético diário. E os carboidratos têm um papel importante, pois eles fazem parte do grupo dos energéticos, que como o próprio nome indica, tem a função de produzir a energia necessária a todas as atividades orgânicas. Os alimentos energéticos podem ser comparados ao combustível do automóvel, sem o qual o carro não anda.
Já que o grupo de carboidratos é tão importante pode-se consumir só ele ou consumir em grandes quantidades? Não, porque vão faltar os outros grupos complementares para a formação de uma dieta saudável e equilibrada. Também existe o fato de que o excesso de carboidratos, o que o corpo não consome, se acumula na forma de forma de gordura, causando a aparição de obesidade e doenças associadas. Nota-se um grande aumento de obesidade principalmente na faixa etária infantil, por quê?
Antigamente consideravam-se bonitas crianças com dobrinhas e gordinhas, nos tempos atuais nota-se um grande aumento de crianças com dobrinhas e gordinhas. Continua sendo bonito?
Levando em consideração que a escola é o local onde as crianças passam grande parte do dia, a escola atua de maneira significativa na formação de opiniões e nas construções de conceitos, por isso é de extrema importância um debate e/ou uma reflexão acerca da composição dos cardápios da merenda escolar e educação alimentar.

*Sineide Santos é nutricionista e Analista de Projetos da Ação Fome Zero

outubro 13
"As merendeiras e o Programa Nacional de Alimentação Escolar" por Nuria Chaim

Segundo o dicionário Houaiss, o termo “merendeira” refere-se a: 1. Pão pequeno, usual em merendas; merendeiro. 2. Bolsa, cesta ou maleta própria para levar a merenda; merendeiro. 3. Regionalismo: Brasil. Funcionária de escola encarregada de preparar e/ou servir merendas. 4. Regionalismo: Portugal. Bolo natalino à base de abóbora, farinha e mel. De acordo com o dicionário Michaelis:  1. Regionalismo: Rio de Janeiro. Mulher que prepara merendas nas cantinas escolares. 2. Essa função ou cargo nas escolas públicas.

De acordo com alguns editais de concursos públicos, merendeiras são profissionais com nível fundamental completo ou mesmo incompleto, que ganham em média entre R$600,00 e pouco mais de R$1.400,00 por mês para uma carga horária semanal que varia de 30 a 40 horas. Entre suas atribuições estão: preparar e distribuir merenda escolar; controlar o total de merendas distribuídas; verificar se os gêneros fornecidos para utilização correspondem à quantidade e às especificações feitas pela equipe de nutrição; pesar e medir os ingredientes para a confecção da merenda; zelar pelos mantimentos, quanto à sua higiene e conservação; manter a organização e a limpeza do material e local de trabalho (refeitórios, cozinhas e utensílios), ou seja, cuidar de todo o fluxo envolvido no preparo da alimentação escolar: recebimento dos gêneros, preparação da refeição, organização dos refeitórios (caso existam), distribuição aos alunos, limpeza do local, equipamentos e utensílios e controle de estoque.
 
De acordo com o Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar (edição 2011), as merendeiras têm o seguinte perfil: atendem a cerca de 110 alunos por dia e estão presentes, de acordo com as prefeituras inscritas, em número de 2,6 profissionais por escola pública. Quanto aos investimentos feitos pelas prefeituras para valorização profissional, verifica-se que o fornecimento de equipamentos de proteção individual e a realização de cursos e capacitações são as iniciativas mais comumente encontradas (citadas por cerca de 80% dos municípios inscritos), sendo que apenas 28% dos inscritos declararam adotar gratificação, incentivos financeiros e ainda ter plano de carreira como medidas de valorização profissional.
 
De acordo com a Resolução n. 38 de 2009 e a Lei 11.947 de 2009, que dispõem sobre o atendimento da alimentação escolar aos alunos da educação básica no Programa Nacional de Alimentação Escolar - PNAE, o termo “merendeira” não é citado nenhuma vez. Já a palavra “cozinheira” aparece na Resolução 38 no Anexo VII TESTES DE ACEITABILIDADE NA ALIMENTAÇÃO ESCOLAR, no seguinte contexto: “Importante: Independente da metodologia a ser adotada é necessário que no dia da realização do teste de aceitabilidade a cozinheira sirva os alunos como de costume ou hábito.”.
 
A partir deste quadro, cabe a pergunta: afinal, que local ocupam as merendeiras no sistema de alimentação escolar das escolas públicas? São elas invisíveis perante a lei? E na prática, exercem as merendeiras apenas a função de cozinheiras ou mais do que isso? Apenas pra ajudar a pensar o papel da merendeira (aliás, esta é uma função reservada apenas ao público feminino?), vamos fazer uma comparação com o setor privado. Como será que funciona a divisão de tarefas em um restaurante comum? É a cozinheira (ou o cozinheiro) o responsável pela qualidade do alimento entregue pelo fornecedor? É a cozinheira (ou o cozinheiro) que controla o estoque, cuida do refeitório e, ainda por cima, carrega consigo a função de “educador alimentar”?

Buscar as respostas, que não são óbvias e provavelmente não são as mesmas para cada canto do nosso país, é um exercício fundamental para identificar os elos frágeis deste sistema que é alimentação escolar. E fortalecer esses elos é também essencial para que o direito humano à alimentação adequada seja de fato cumprido.

outubro 03
"O Protagonismo dos emergentes na Rio+20" por Antoninho Marmo Trevisan *

Em 1992, quando se realizou, no Rio de Janeiro, a II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano, a Eco/92, até então a maior reunião de chefes de Estado de toda a História, a Terra tinha 5,3 bilhões de habitantes. A eles, os mandatários do Planeta fizeram uma solene promessa, consubstanciada no documento oficial do evento, a Agenda 21, de drástica redução da miséria, crescimento econômico e conciliação da prosperidade com a preservação ambiental.
Transcorridas quase duas décadas, o mundo está atingindo a marca de sete bilhões de habitantes em 2011, dos quais, segundo estudo do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), cerca de 1,6 bilhão vivem com menos de 66 reais mensais. As camadas de gelo dos polos nunca estiveram tão derretidas como hoje, as florestas tão devastadas, a camada de ozônio tão escancarada e a economia tão ameaçada pelas crises fiscais da Europa e dos Estados Unidos.
Em 1992, os países desenvolvidos do Hemisfério Norte davam as cartas sozinhos, por meio do G8, e impunham todas as condições. As crises eram endêmicas ao Sul do Equador e epidêmicas na África. Ainda não acontecera a catástrofe do sub-prime e os norte-americanos não haviam gasto alguns trilhões de dólares, a fundo perdido, nas guerras que se seguiram à tragédia de 11 de setembro de 2001, que contribuíram para a estratosférica elevação de sua dívida pública. A Rússia emergia dos escombros da União Soviética, implodida em 1991, enquanto Brasil, China e Índia seguiam sua rotina de nações em desenvolvimento.
O mundo transformou-se! Hoje, o G20 iguala-se e se impõe ante o G8 nas deliberações sobre os rumos da economia mundial, condição, aliás, para a qual contribuiu muito a ação diplomática brasileira nos últimos oito anos. Os países desenvolvidos, com raras e honrosas exceções, estão sem dinheiro, endividados e crescendo pouco. As economias emergentes são as que mais aumentam seu PIB. Os problemas mundiais, porém, continuam os mesmos, e agravados pela expansão demográfica, a insegurança alimentar, as crises econômicas e o desencadeamento efetivo das mudanças climáticas.
É sob esse cenário que caminhamos para a Rio+20, a ser realizada em maio de 2012, sob os auspícios da ONU, em mais uma tentativa de equacionar os graves problemas da sustentabilidade. Foi exatamente com o propósito de analisar e apresentar sugestões que subsidiarão  as propostas dos chefes de Estado e delegações oficiais na conferência, que os integrantes do Conselhão, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) da Presidência da República, reuniram-se em Moscou, no mês de setembro, com colegiados similares das três outras nações integrantes do BRIC: Rússia, Índia, China e mais África do Sul.  
As reuniões, das quais participei, foram bastante produtivas, a começar pela formalização de um pressuposto bastante lúcido para os programas a serem debatidos na Rio+20: a solução para a crise mundial, que é econômica, social e de valores, passa pelo papel essencial que a sociedade civil pode desempenhar, sem deixar de lado a forte presença do Estado na garantia dos direitos universais para as populações (aqui, dentre outros itens, estamos falando de saúde, educação, moradia, inclusão social, segurança alimentar e física).
Dentre as minutas de propostas, há algumas cuja implementação será decisiva para a solução dos problemas que afligem a civilização. Uma delas refere-se ao fato de que a responsabilidade social dos negócios não pode restringir-se aos aspectos econômicos de uma economia verde. É necessário criar indicadores de sustentabilidade com padrões sociais nacionais, capazes de monitorar o desempenho da sociedade no tocante  ao desenvolvimento econômico, mas também nos aspectos ambiental, social e regional.
Outro avanço debatido em Moscou é inovador quanto à análise da economia, que não pode continuar limitada aos índices frios de crescimento do PIB, renda per capita, oscilações das bolsas de valores e do câmbio, rendimento das aplicações financeiras e índices de importação/exportação, dentre tantos outros indicadores presentes nos balancetes das empresas, na mídia e nos relatórios dos economistas chefes de distintas instituições. Mais do que  nunca, o desempenho econômico deve, também, ser medido por dados de redução da pobreza, preservação da natureza e da biodiversidade, qualidade da vida e saúde, justiça distributiva regional e no respeito às diversidades.
 É muito importante, ainda, a proposta de que o patrimônio ambiental deva ser valorizado e considerado parte do PIB de cada país. É previsível que essa tese gere conflitos de interesse entre o G8, cujos membros literalmente devastaram seu ambiente (e o de muitas outras nações) para produzir e enriquecer, e o G20, constituído por países de industrialização tardia, que mantêm preservada parte expressiva de sua natureza, biodiversidade, recursos hídricos e os naturais. É o caso do Brasil. Tais reservas da biosfera, essenciais para a sustentabilidade de todo o Planeta, devem ser compensadas por um fundo constituído pelas nações que já utilizaram seus ativos ambientais para atingir patamares maiores de desenvolvimento. É importante lembrar que deliberação semelhante foi aprovada em 1992, na Conferência do Rio de Janeiro, mas jamais cumprida.
Aliás, quase nada foi efetivado das promessas à humanidade feitas há duas décadas. Em termos práticos, não se implementou a Agenda 21, programa de ação para o qual contribuíram governos e instituições da sociedade civil dos 179 países participantes, num processo preparatório que durou dois anos. Do mesmo modo, a Declaração do Rio, a Convenção sobre a Diversidade Biológica e a Convenção sobre Mudanças Climáticas são meras peças de leitura. A grande questão ante os desafios persistentes é a seguinte: se à época que estavam ricos os países desenvolvidos acabaram não fazendo sua parte, em especial no tocante à constituição de fundos e financiamentos internacionais para a sustentabilidade, será que mudarão de atitude agora que estão mergulhados em profunda crise?
A resposta é um tanto óbvia... Torna-se cada vez mais evidente – e isso permeou o encontro dos Conselhões do BRIC em Moscou – que os emergentes serão protagonistas nas deliberações de 2012, no Rio de Janeiro, em prol de um modelo de civilização que concilie democracia, prosperidade econômica, menos disparidades regionais, justiça social e entre as nações e salubridade ambiental. Vinte anos depois, a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano não pode, mais uma vez, produzir meras cartas de intenções. O futuro já chegou, confirmando muitas das previsões apocalípticas da Eco 92. Em tempo: 46 milhões dos terráqueos que subsistem abaixo da linha da pobreza são habitantes dos Estados Unidos, que acabam de divulgar esse dado, um novo recorde negativo de sua história.

* Antoninho Marmo Trevisan é o presidente da Trevisan Escola de Negócios, membro do CDES-Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República e presidente do Comitê Gestor da Ação Fome Zero.

setembro 15
Alimentação escolar pode ser rejeitada por alguns alunos? Por quê?

O alimento ao ser apresentado a uma pessoa é carregado de significados que facilitam ou não sua aceitação. Por exemplo, alguns filhos de famílias vegetarianas não comem carne por entender que seu consumo incentiva práticas violentas de criação de animais; tem os que não comem determinados alimentos por motivos religiosos; e tem crianças que não comem a alimentação escolar por preconceito e outros significados pejorativos que culturalmente foram associados a essa refeição.

A merenda escolar começou a ser executada por meio de doações pessoais, empresariais e até estrangeiras, sendo aos poucos estruturada em uma política publica assegurada constitucionalmente. Essa política foi evoluindo e atualmente ela é denominada Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), sendo considerado um dos maiores programas no mundo na área de alimentação escolar e o único com atendimento universalizado.

No entanto, para muitos brasileiros, a alimentação escolar ainda é vista como uma ajuda dos governos aos mais necessitados, produzida com alimentos de baixa qualidade e sem sabor. Algumas crianças, as vezes, mesmo com fome deixam de comer a refeição na escola por vergonha de serem rotuladas como miseráveis.  

Existem práticas nas escolas que colaboram com essa situação, como a permanência de cantina e o habito de levar alimentos de casa para serem consumidos nas escolas.
 
A alimentação escolar mais que suprir as necessidades nutricionais dos alunos se propõe a ser uma prática pedagógica que educa as crianças a bons hábitos alimentares. Assim, independente das condições sócio-econômicas dos alunos, todos devem consumir a merenda escolar.
 
Para isso, um trabalho com alunos, pais de alunos e educadores, objetivando contextualizar a política de alimentação escolar e  reconstruir significados, que possibilitem a elaboração de sentidos positivos a esta refeição é fundamental.
A Ação Fome Zero, realiza há 8 anos o Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar com o objetivo de conhecer e disseminar boas práticas na execução da alimentação escolar. Todo ano, todos os municípios brasileiros são convidados a participar do Prêmio, mas acredita-se que só se inscrevem os que realizam uma boa gestão e imaginam ter condições de ganhar a premiação.
 
Neste ano, 1.082 prefeituras se inscreveram e 648 foram válidas. No universo das inscrições válidas informaram: 54% realizar formação da comunidade escolar como estratégia de educação alimentar e nutricional; 62% ter o tema alimentação escolar no currículo; 81% realizar cursos e/ou capacitação que contribuem para a boa execução do trabalho das merendeiras e; 68% aplicar testes de aceitabilidade.
 
Uma rápida análise dessas informações revela que quase 1/3 das prefeituras ainda não executam ações para ampliar o consumo da alimentação escolar saudável e esse panorama só tende a ficar mais preocupante se considerarmos os municípios que não se inscreveram no Prêmio. Ainda, das gestões inscritas e validadas, 30% informaram existir cantina ou comercialização de alimentos dentro escolas, o que se caracteriza uma competição e desestímulo ao consumo da merenda, como já mencionado.
Por fim, é importante destacar que a alimentação escolar é um direito individual e intransmissível que deve ser amplamente divulgado para melhor usufruto e controle social de sua execução. 
 
Quando a população brasileira assimilar que a alimentação escolar de qualidade é um direito e que deve ser acompanhada de perto para exigência do que está assegurado em suas normativas, como quantidades significativas de frutas e verduras esse direito deixará de ser ignorado e alcançará seu objetivo, qual seja, contribuir para o crescimento e o desenvolvimento dos alunos garantindo a saúde nutricional e a melhoria do rendimento escolar.
abril 26
Centralizada, escolarizada ou terceirizada?

Quem abrir o formulário de inscrição da edição 2011 do Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar vai encontrar uma pergunta sobre a forma de gestão dos recursos do PNAE. As opções para resposta são: centralizada, escolarizada e terceirizada. Provavelmente essa é uma questão fácil de responder, uma pessoa relacionada com a merenda do município certamente sabe a forma de gestão executada nele. Mas sobra uma dúvida, qual resposta vale mais?

Ora, o formulário coleta informações para um prêmio e o desempenho do município é baseado em indicadores que são gerados a partir de informações fornecidas por meio de seu preenchimento, então tudo que é informado lá deve valer pontos, certo? Errado! O formulário de inscrição tem mais de uma função. Sim, a maioria das informações são utilizadas para compor o desenho do desempenho dos municípios, porém, todas as perguntas foram elaboradas de forma a incentivar a reflexão sobre a sua gestão da merenda. Ou seja, no caso de nossa pergunta exemplificada aqui, nenhuma das respostas vale mais do que as outras, porque não existe forma certa ou errada! Além disso, é claro que todo mundo ligado à merenda sabe a forma da gestão do recurso no município, mas será que você sabe por que essa forma foi adotada? Ou quando? Ou se ela é, de fato, o melhor para sua realidade?

E isso serve como dica para quem for preencher o formulário de 2011: não apenas coloque os dados lá, leia e reflita sobre as perguntas. Use o formulário como um instrumento de auto-avaliação de sua merenda e chegue a suas próprias conclusões sobre o que pode ser feito para deixar a qualidade ainda melhor!

 

abril 15
Os envelopes do Prêmio.

As datas comemorativas mexem com o ambiente de trabalho das pessoas. Alguns escritórios, por exemplo, decoram o ambiente para o natal. Outros, preferem as bandeirinhas típicas das festas juninas. Aqui na Ação Fome Zero, porém, o período do ano que mais influência o visual de nossa sede é a época de inscrições e avaliação dos municípios participantes do Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar.

Chega até a ser engraçado como as pilhas e pilhas de envelopes, cuidadosamente organizados por ID (sabe, aquele campo no formulário para uso interno?) crescem com uma velocidade exponencial em cima de nossos armários. Isso sem contar que cada pilha tem uma mistura de cores própria, intercalando o papel pardo padrão, o branco, o laranja e as mais variadas cores daquelas prefeituras que usam envelopes personalizados. É uma decoração não usual, mas traz um bom astral para a equipe: uma sensação de que as coisas estão acontecendo e de que todo o trabalho duro planejando a edição do prêmio está finalmente dando resultados. E é claro, dá um certo pânico. Coisa leve, porém inevitável já que a quantidade de formulários costuma passar dos 600 e é muito o que deve ser feito com cada um deles. São leituras de atas e mais atas, pareceres e mais pareceres, demonstrativos e... bem, e mais demonstrativos! Isso sem contar os projetos enviados pelo município e a tabulação dos dados informados no próprio formulário. Toda a atenção e concentração da equipe são necessários nessa fase. Ai de quem fizer barulho!


Mas a coisa anda e, depois de pouco mais de um mês, todos os envelopes são abertos, cuidadosamente analisados e têm seus dados tabulados. Nossa decoração, porém, não sofre alterações. Os envelopes continuam em nossa sala, constantemente consultados enquanto acontece a primeira reunião da comissão julgadora, para definir os finalistas, as visitas técnicas nesses municípios e a segunda reunião do júri, onde são escolhidos os premiados. A "decoração" do Prêmio só é desmontada depois da Cerimônia de Premiação. Isso, aquela que só acontece lá pra novembro, dezembro. Pois é, todos os formulários que recebemos nessa época são constantemente trabalhados por quase o ano todo. Dá até pra se perguntar se não são os armários sem nada em cima a exceção.

 

 

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